Terça-feira, Fevereiro 02, 2010
Tenho o coração cerrado em pinças - é a solidão inteira em que habito. Sempre soube que teu olhar não basta.
As nuvens se chocavam no céu, anunciando aquele suave pesadelo - o ar corre diferente nos pulmões, a natureza, inútil, é rebeldia contra o edifício que arranha o ar. Água corre na sarjeta, e nada muda: que mundo é esse, em que a água não limpa a parte de dentro do intestino?
Fragmento de outro texto, melhor do que esse:
"É a chuva que cai sobre nós, o rádio grita seus números e percebo – estou preso numa fila de carros sem esperança de libertar-me. No frio corte daqueles ombros que atravessaram o asfalto, lembrei-me de você, a pegar seus tênis no quarto. O sentido dessa lembrança escapa-me inteiramente, sou só um peito que transborda entre faróis inúteis. Poderia te perguntar: o que sentiu quando olhava aquele quadro, onde esteve quando eu vivia a planta, preso no concreto? O raspar do motor me responde com um grunhido – seriam meus dedos a triturar-se debaixo do capô desse carro? Não, pois meus dedos estavam firmes sobre o volante, e você nunca saberá que nessa rua tem uma verdade que vai sumir quando se anunciar o movimento. Nunca saberei a verdade (se é que houve alguma) dos teus sapatos no armário. Mas parece-me que nunca soube de outra certeza além do estar aqui, preso no trânsito, e do desejar não estar sozinho nessa tarde fria. Tarde de primavera, não guardas nenhum segredo que eu já não conheça – teus milagres me encantam, mas não fazem o chão sumir dos meus pés."
"É a chuva que cai sobre nós, o rádio grita seus números e percebo – estou preso numa fila de carros sem esperança de libertar-me. No frio corte daqueles ombros que atravessaram o asfalto, lembrei-me de você, a pegar seus tênis no quarto. O sentido dessa lembrança escapa-me inteiramente, sou só um peito que transborda entre faróis inúteis. Poderia te perguntar: o que sentiu quando olhava aquele quadro, onde esteve quando eu vivia a planta, preso no concreto? O raspar do motor me responde com um grunhido – seriam meus dedos a triturar-se debaixo do capô desse carro? Não, pois meus dedos estavam firmes sobre o volante, e você nunca saberá que nessa rua tem uma verdade que vai sumir quando se anunciar o movimento. Nunca saberei a verdade (se é que houve alguma) dos teus sapatos no armário. Mas parece-me que nunca soube de outra certeza além do estar aqui, preso no trânsito, e do desejar não estar sozinho nessa tarde fria. Tarde de primavera, não guardas nenhum segredo que eu já não conheça – teus milagres me encantam, mas não fazem o chão sumir dos meus pés."
Segunda-feira, Dezembro 14, 2009
Viver é sentir sempre o coração despertar para uma realidade absoluta, e me jogar nela é perder o rumo e perder-se, perder a vida que palpita em meu peito pela frieza do mármore. É sempre a morte que me espreita - a dor de perder-se nos olhos do outro, a chama na boca quando recebo um golpe no meu rosto já tão cansado. Que peito é esse, que nao sabe gozar - só conheço o não na sua voz.
Terça-feira, Dezembro 08, 2009
Dezembro, era dia frio. Levantamos os narizes, o céu abateu o sol. Guarda-chuvas pretos eram as flores de uma cidade de ferro. Desastre habitual: as nuves ameaçavam o caos sobre cabeças paulistanas. A chuva de confetes verdes - houve mortes, prejuízos. Vozes contra o prefeito: sessenta por cento do total previsto para o mês, obras, números, prefeitura trabalhando.
Nesse dia, peguei um confete do chão - nele estava escrito um nome que só eu conheci.
Sexta-feira, Novembro 27, 2009
Havana, o plano abstrato de tuas ruas queimou-se no meu peito - sou hoje surdo ao apelo de outros lugares. É possível amar uma cidade como quem ama uma mulher? Só a distância cimenta o desejo de tuas roupas na varanda, do teu solo de terra (bolas de gude) que sentiram o áspero de meus pés. Vivi no exílio de uma cidade que não era a minha - exílio e saudade de uma cidade que eu pressenti, sem saber qual era. Havana, encarnaste-te ao meu redor sem me deixar o tempo de perguntar - és real, minha cidade? Pois soube que eras minha no momento em que te afastaste e esqueceste o peso de meus dedos sobre teu asfalto.
E aquele corpo diminuto transformou-se em arauto de toda a negritude por trás dele. A sua realidade é virtual, é virtual sua presença sorridente - o negro é a vida que não aconteceu.
Sábado, Novembro 14, 2009
A força tende para a morte, a minha mão pinica enquanto a vejo ser roída pelos vermes. Você, e o fim. Chaque personne est bien seule. Toi, qui crois à la mort, toi aussi, tu habites cette terre sans racines. Moi, j'habiterai toujours la solitude de cette fosse commune, le froid du béton me rend doucement fou.
Sexta-feira, Novembro 13, 2009
Quinta-feira, Novembro 05, 2009
Mais um dia, desses que nenhuma dor aclara. A carcaça de um carro, seu metal retorcido no sol de uma rua sem sombras. Tenho um peito que implode.
Mais um dia, desses que nenhuma dor aclara. Sou uma engrenagem sem óleo, sou o ranger de cordas de metal, sou o martelo que tomba sobre mim.
Mais um dia, não há brilho que valha essa dor.
Mais um dia, desses que nenhuma dor aclara. Sou uma engrenagem sem óleo, sou o ranger de cordas de metal, sou o martelo que tomba sobre mim.
Mais um dia, não há brilho que valha essa dor.
Assinar:
Postagens (Atom)