segunda-feira, dezembro 14, 2009

Viver é sentir sempre o coração despertar para uma realidade absoluta, e me jogar nela é perder o rumo e perder-se, perder a vida que palpita em meu peito pela frieza do mármore. É sempre a morte que me espreita - a dor de perder-se nos olhos do outro, a chama na boca quando recebo um golpe no meu rosto já tão cansado. Que peito é esse, que nao sabe gozar - só conheço o não na sua voz.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Dezembro, era dia frio. Levantamos os narizes, o céu abateu o sol. Guarda-chuvas pretos eram as flores de uma cidade de ferro. Desastre habitual: as nuves ameaçavam o caos sobre cabeças paulistanas. A chuva de confetes verdes - houve mortes, prejuízos. Vozes contra o prefeito: sessenta por cento do total previsto para o mês, obras, números, prefeitura trabalhando.
Nesse dia, peguei um confete do chão - nele estava escrito um nome que só eu conheci.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Havana, o plano abstrato de tuas ruas queimou-se no meu peito - sou hoje surdo ao apelo de outros lugares. É possível amar uma cidade como quem ama uma mulher? Só a distância cimenta o desejo de tuas roupas na varanda, do teu solo de terra (bolas de gude) que sentiram o áspero de meus pés. Vivi no exílio de uma cidade que não era a minha - exílio e saudade de uma cidade que eu pressenti, sem saber qual era. Havana, encarnaste-te ao meu redor sem me deixar o tempo de perguntar - és real, minha cidade? Pois soube que eras minha no momento em que te afastaste e esqueceste o peso de meus dedos sobre teu asfalto.
E aquele corpo diminuto transformou-se em arauto de toda a negritude por trás dele. A sua realidade é virtual, é virtual sua presença sorridente - o negro é a vida que não aconteceu.

sábado, novembro 14, 2009

A força tende para a morte, a minha mão pinica enquanto a vejo ser roída pelos vermes. Você, e o fim. Chaque personne est bien seule. Toi, qui crois à la mort, toi aussi, tu habites cette terre sans racines. Moi, j'habiterai toujours la solitude de cette fosse commune, le froid du béton me rend doucement fou.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Só o escuro da dor é familiar nesse meu lar em exílio.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Mais um dia, desses que nenhuma dor aclara. A carcaça de um carro, seu metal retorcido no sol de uma rua sem sombras. Tenho um peito que implode.
Mais um dia, desses que nenhuma dor aclara. Sou uma engrenagem sem óleo, sou o ranger de cordas de metal, sou o martelo que tomba sobre mim.
Mais um dia, não há brilho que valha essa dor.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Você é o que roda num furacão - esse centro, esse centro, esse centro, esse centro está no teu nariz, estende teus dedos e toca! Mas o triste de estar num furacão que roda roda roda é que você fecha os olhos na vertigem do movimento e olha para um céu vazio. O céu é vazio porque você olha para cima e só vê seus dedos apontando para o céu e dizendo "olha, lá está o céu na minha unha!". Você acha que pode ver o céu? Você acha que pode ver o chão? Você só pode ver o avesso das tuas pálpebras, e há anos os médicos decretaram um estranho problema nos teus músculos que te impede de levantar esse véu que faz com que você só veja miséria. A miséria, miséria, a miséria, teu corpo é um balde de miséria.
Você tem olhos marrons cheios de uma vida que ninguém descobriu. Você tem voz e tem voz que é só sua. Teu coração bate, e como! Você tem corpo, tem seios, tem pernas, tem dedos no pé, tem lábios, e eles chamam o chão, eles amam a terra, o doce puro da terra, não os negue! Não os negue! Não, você não merece a si mesma, teus olhos e tua voz, e teu coração, teu coração e teu coração estão rodando e não vão parar de rodar. Tuas pupilas rolam no enjoo da vertigem.

sábado, outubro 03, 2009

Quando vem o tiroteio, há aqueles que se abaixam. E também, há os outros, aqueles que andam na rua e não percebem as balas que voam.

Sem querer, alguém explodiu uma granada e morreram todos.

quarta-feira, setembro 23, 2009

A hora do intervalo é a que dura: só o eterno explica o peso que há no peito do corpo que acordou e viu que já era tarde. Percebe que todos os ônibus passaram - a firma já fechou e o escritório já conta as perdas. As pessoas se recolheram - a novela das oito acabou e os olhos abertos não dão Ibope. Dois namorados se encontram cansados na hora indigente que roubaram para o amor. Nos olhos dela o corpo percebe a rejeição e o fim que se anuncia no entretempo.
É manhã, mas eu não respiro o odor do começo - a trilha de sangue que seguem todos. É manhã, o sol não nasceu, só os autômatos levam nossos nomes em seus corpos de poeira. Ontem anunciaram a primavera, mas hoje a chuva anunciou céus pesados e é o chumbo que chove nas gramas.
De novo, constato? Nenhuma flor nasceu na rua. Um sabiá range sobre uma folha de palmeira. O verde tem a cor do alumínio. Não, poeta, você não acordou - não acorde que o tempo é de dormitar. Antes dormir para sempre do que acordar nessa terra de aço: acordar é perder o bonde do que se desperta.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Você se sentava no sofá, e tua presença era tão certa quanto o azul. Mas o sofá está ainda na sala, e você já não tem mais aquela fala incisiva - você já não tem mais nada, pai, e as falas que te destino caem em ouvidos mortos. Mas não tenhamos remorsos: as pessoas têm menos ouvidos do que as paredes contra qual esmurramos nossas cabeças.
Suponha, pai, que a vontade de dizer te anime a ponto que você rompa seu caixão e tenha vontade de gritar.
Não grite.

domingo, setembro 13, 2009

May I have another slice, please?
O corpo se joga e abraça a queda - abraçá-la é pedir para que o segurem e lhe digam que está tudo bem. Se o corpo é acolhido ou se o corpo se espatifa no chão, tanto faz - a miséria está no ato de jogar-se quererendo mais do que o solo que nos arranha.

Ninguém pode jamais querer esse solo que arranha.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Sem terra,

sem labor,

sem a feiura toda desse mundo,

não haveria talvez essa minha saudade.


Você,

minha linda,

água limpa de um ribeirão,

você seria mais riacho

e mais cristal,

e mais grama onde sentar-me e sonhar sonhos bons.


Durmo, e acordo num susto

você estaria lá,

e não partida para um dia de carvão.


Meu coração,

negro,

seria mais negro

ou mais claro,

ou mais forte,

talvez

é certo que seria mais.


Não houvesse essa terra, o labor,

a feiura

mas há, e você ainda é rio

e ainda corre

cristalina.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Ele cresce com a sombra paterna que engole a vida - quando eu já estava em paz e escrevia, nasce essa carne externa que me nega e me impede de ser. Não é mestre quem se impõe e me prende - o carrasco de mim me é alheio.

terça-feira, agosto 18, 2009

Quand le soleil brille, ses rayons sont sur ma tête; d'ailleurs, je ne suis pas comme ceux qui aiment. Le temps orageux ne rend pas le désir de la mort moins amer: l'acide sur mes mains et l'amour qui menace font ses formes sur la peau. L'eau fait un empire sous son sang. Non, il pousse et le soleil qui brille est perçant. Le désir nourrit, mange et crache le néant: les riens qui nous remplissent coulent et nous laissent creux sur les murs.

quinta-feira, agosto 13, 2009

Debaixo dos pés, o asfalto. Sentir o seu gosto é provar as pedras cintilantes que nele se misturam. O gosto de sal da língua que se corta no mineral - o sangue tem gosto de mineral. Prédios cobrem o céu e são mais espessos que as nuvens. Nenhuma flor nasceu na rua - o tumor de carne na calçada cresce e engole o ar.

sexta-feira, julho 03, 2009

Círculos concêntricos, e espiral - gotas de água pelo céu em formas exatas. Tuas nuvens, então: tua pulsão de comê-las é estar sob seu jugo, sua frieza. Não, não as ama, pois que as pedras também talharam teus joelhos. O gosto e o gozo está nelas, no minério e chão. O solo da vida sussurra mensagens em tua orelha. Seu sopro te arrepia, teus pelos se levantam, e volúpia: quer ser desejo, ou o objeto que o desejo tem. Carne e carne que nasce da carne, quer o tempo do sol sem tiques de relógio, ou da lua, e dançar - quer o tempo que o tempo tem. O sangue não tem fala geômetra.

segunda-feira, junho 22, 2009

A morte não leva propriamente os seres de nós; ela leva a sua memória. É a lenta morte da memória dos meus mortos que me acaba: são fantasmas a se arrastar na mente sem carne.

sexta-feira, junho 12, 2009

Um rascunho
A cidade tem maneiras estranhas de se enfeitar. Não é difícil encontrar espantos novos, enfeite em detalhes que surgem de uma zona de normalidade e se transformam em pasmo. É andar pela rua onde ela agora desfila com cadarços em pérola, olhos de carvão frio e o rastro de estar sozinho. Mas, coração teimoso, também dessa ferida eu cicatrizo: é fácil amar o corte e não desejar que olhos virem em verde doçura. Convenço-me na beleza que a indiferença tem: a pedra é mais doce que uma jujuba. Assim, o lado esquerdo da Marginal deixa de incomodar - da sua terra crescem cães mortos, diversa flora