segunda-feira, junho 22, 2009
sexta-feira, junho 12, 2009
Um rascunho
A cidade tem maneiras estranhas de se enfeitar. Não é difícil encontrar espantos novos, enfeite em detalhes que surgem de uma zona de normalidade e se transformam em pasmo. É andar pela rua onde ela agora desfila com cadarços em pérola, olhos de carvão frio e o rastro de estar sozinho. Mas, coração teimoso, também dessa ferida eu cicatrizo: é fácil amar o corte e não desejar que olhos virem em verde doçura. Convenço-me na beleza que a indiferença tem: a pedra é mais doce que uma jujuba. Assim, o lado esquerdo da Marginal deixa de incomodar - da sua terra crescem cães mortos, diversa flora
quarta-feira, junho 03, 2009
É hora de se perguntar se há causa para a chuva. É hora de se perguntar se há causa para a tristeza, para a vontade de morrer. Para o não lugar, o não ser, para o não pertencer, não amar. De cima para baixo, a catástrofe - perder o rumo, perder o chão. Em segundos, as engrengens que cuidadosamente você alisou, montou e engraxou se transformam em sucata pela força demolidora do não. E o coração grita, sem resposta possível: "Não seja!". Força é obedecer. A velocidade daquele carro convida a um atropelamento, a altura daquele prédio pede um salto e um espatifar-se no chão.
sexta-feira, maio 29, 2009
sábado, maio 23, 2009
Veja, minha cara, a força e a beleza que o desespero tem. É com ele que o mundo se muda e se faz belo, não há inteligência sem o não. Há, claro, a esperança, o gozo, há o extase das coisas belas. Mas se sentir mal, amiga, é direito e dever. A negatividade não se combate, não se alivia, ela se sente, experimentamos toda a força do inconformismo. Tenho raiva, e muita. Essa raiva, esse rancor profundo das coisas não vai embora. Reprimida, essa criança volta com força e não resisto - só ama quem odeia. Só acredita que não há lugar para a dor quem fecha os olhos e acha que tudo vai bem.
segunda-feira, maio 18, 2009
Não sabia,
o meu pai,
(os olhos cinzas).
No círculo,
jogaste as pedras cinzas
o gude
levou
teus olhos,
meu pai,
não sejas saco de tripas.
Pai, tem uma luz
pai,
ser daltônico,
não me ensinaste a correr.
Pai, hoje,
quero fugir
como a poesia
foge,
quero morrer,
como o amor
morre,
quero doer,
como for,
dói.
Pai,
escrever
teus ouvidos
mortos.
Pai, teus olhos,
pai,
mortos,
a quem digo?
pai!
não
bem sei que não ouves...
o meu pai,
(os olhos cinzas).
No círculo,
jogaste as pedras cinzas
o gude
levou
teus olhos,
meu pai,
não sejas saco de tripas.
Pai, tem uma luz
pai,
ser daltônico,
não me ensinaste a correr.
Pai, hoje,
quero fugir
como a poesia
foge,
quero morrer,
como o amor
morre,
quero doer,
como for,
dói.
Pai,
escrever
teus ouvidos
mortos.
Pai, teus olhos,
pai,
mortos,
a quem digo?
pai!
não
bem sei que não ouves...
domingo, maio 17, 2009
sexta-feira, maio 15, 2009
Ces jours-là, on a envie de danser. Danser, ces jours-là, on a envie de danser. Ces jours, que dis-je? sont les jours où on dort, je dors. Et dormons, parce que, ces jours, ils finissent - on attend la fin puisque tu sais et tu dors. Ces jours-là, surtout, ne danse pas, puisqu'ils t'invitent, toi, à danser. Ces jours-là, tu comprends?, finissent si tu dors, donc, tu dors, la fuite te berce et te prépare à la fin.
sexta-feira, maio 01, 2009
A lâmina racha o sangue - como não morrer? O que corre em minhas veias é amor: o seu peso, sua sina. Latejar é gostar sem trégua, sem escolha no gostar: o movimento é uma sucessão de posições que ela nunca mais ocupará. Essas posições, eu as amo, e cada uma é um litro de tempo em que morre o meu corpo.
a
Coração teimoso, você não sabe o que é limite - ama-as todas, e desdenha a precaução: convida e recusa a noite, incerto que está entre o êxtase e a ferida.
sexta-feira, abril 24, 2009
Aproximam-se, o vaso e a flor e o caderno de notas. Eles também não sabem quem é, você que sofre com o desprezo das coisas. Você que não ama a morte, ela está em suas coxas. Ela pega sua pele, suor de amor quando acaba. E acaba. Você deita em uma cama de sonho e escreve - as estrelas, os mundos, você escreve a permanência. As leis imutáveis, acredite, elas mudam: elas morrem sem traço visível no corpo.
O pulso, sem memória no pulsar, nos convida no banquete limitado do agora.
sábado, abril 18, 2009
Ideia para uma narração: um personagem sai para vida apenas para perceber o desgaste e o abismo que existe entre os seres. Nesse momento, o momento de revelação, ele percebe que não há relação que não seja baseada no desacerto, na incomunicabilidade. Desacerto por desacerto, ele prefere o da literatura, menos doloroso, de angústia equivalente.
(nota: texto já escrito, e sempre. achar outro tema)
segunda-feira, abril 13, 2009
outro:
O olhar se concentra e se dispersa no ponto vasto e pequeno que ela ocupa. O volume reduzido dos limites que ela impõe entre o corpo e o vazio tem ares de uma contradição em exercício. Estar com a vista presa entre essas linhas ressignifica as suas dimensões: curvas, orifícios, cores e maciez se expandem até preencher todo o espaço conhecido e todo o espaço pressuposto. Mas é nesse limite, nessa fronteira ontológica do risco da pele no ar que é preciso encontrar a clara razão das coisas – no vácuo entre o ser e o não, na tragicidade das curvas de dois ombros bem claros, no rosto ligeiramente oval, na delicadeza do lóbulo da orelha, na consistência inorgânica de um fio de cabelo; é no lirismo da transparência finalista de uma unha, e nas suas pontas irregulares talhadas ao gosto de dois dentes, é, enfim, na superficialidade de um corpo profundo e intransigente que a vista perece e enterra. O olhar, em negativo, procura traços no espaço e vácuo na consistência, a presença no vazio e o vazio na presença. O que é a distância, quando ela a percorre? O espaço, quando ela o preenche? O que é o ar, quando ela o respira? Perguntar é perder: seria preciso a faculdade da separação concreta do sólido para que se entendesse o elo único que é tecido entre um ser e seu entorno. Aplicar-se nessa ciência hermética, na enigmática composição latitudinal do seu rosto. Encerrar é preciso: já se pode sentir o peso dos olhos alheios a policiar o exame que você executa.
O olhar se concentra e se dispersa no ponto vasto e pequeno que ela ocupa. O volume reduzido dos limites que ela impõe entre o corpo e o vazio tem ares de uma contradição em exercício. Estar com a vista presa entre essas linhas ressignifica as suas dimensões: curvas, orifícios, cores e maciez se expandem até preencher todo o espaço conhecido e todo o espaço pressuposto. Mas é nesse limite, nessa fronteira ontológica do risco da pele no ar que é preciso encontrar a clara razão das coisas – no vácuo entre o ser e o não, na tragicidade das curvas de dois ombros bem claros, no rosto ligeiramente oval, na delicadeza do lóbulo da orelha, na consistência inorgânica de um fio de cabelo; é no lirismo da transparência finalista de uma unha, e nas suas pontas irregulares talhadas ao gosto de dois dentes, é, enfim, na superficialidade de um corpo profundo e intransigente que a vista perece e enterra. O olhar, em negativo, procura traços no espaço e vácuo na consistência, a presença no vazio e o vazio na presença. O que é a distância, quando ela a percorre? O espaço, quando ela o preenche? O que é o ar, quando ela o respira? Perguntar é perder: seria preciso a faculdade da separação concreta do sólido para que se entendesse o elo único que é tecido entre um ser e seu entorno. Aplicar-se nessa ciência hermética, na enigmática composição latitudinal do seu rosto. Encerrar é preciso: já se pode sentir o peso dos olhos alheios a policiar o exame que você executa.
Um gostinho do meu conto:
O ponteiro do relógio que anda tem o ritmo das batidas do coração e do latejar do pulso. Cada tremor e cada pelo que se arrepia importam nessa vida, que, dizem, é curta demais. Mas a realidade mostra que ela tem a longura do impossível e o tamanho do tédio e do presente. E as distrações, os passatempos, instrumentos de trabalho nessa estranha acumulação de presente que está na proporção inversa dos segundos que se perde acabam por cimentar o irreversível muro sem frestas do agora.
O ponteiro do relógio que anda tem o ritmo das batidas do coração e do latejar do pulso. Cada tremor e cada pelo que se arrepia importam nessa vida, que, dizem, é curta demais. Mas a realidade mostra que ela tem a longura do impossível e o tamanho do tédio e do presente. E as distrações, os passatempos, instrumentos de trabalho nessa estranha acumulação de presente que está na proporção inversa dos segundos que se perde acabam por cimentar o irreversível muro sem frestas do agora.
domingo, março 29, 2009
As peças em branco desse quebra-cabeça não se encaixam, só embaralham na mesa a clara mente que as percebe, e que aceita com alegria as condições desse painel que não se revelará. É assim que eu me sento, bela, e te olho com a satisfação de quem aceitou, por um instante, a miragem de quem vê dois pedaços se juntarem, celebrando a união do nexo perfeito, mas parcial. O fracasso de colocá-los juntos não mancha, minha linda, o gozo inicial: quem pode afirmar que a invenção do nexo, a criação do nexo, que sua junção na mente inaugural é menos que a baixeza da matéria posta em fricção?
Pois entenda, minha cara, que em minha mente confusa, ler é sempre melhor que conhecer.
sexta-feira, março 20, 2009
A vontade de uma violência final, a vontade do silêncio. Vejam esse mar, vejam essas ondas: nelas está a melodia dos afogados - a vontade do rasgo final, a vontade da perna sem tronco. Coloquem o ouvido na concha, e escutem o murmúrio da agonia, do fracasso. Mergulhem embaixo das espumas, e verão que as bases que a sustentam são feitas de sal na ferida. Toquem a água fria, e a frieza será osso, e coluna: a cervical do marco zero está no silêncio.
sábado, março 14, 2009
quarta-feira, março 11, 2009
Os outros não se resumem a um emaranhado de textos a se cruzar ao infinito. Desses fios, alguns se escondem, outros se mostram, cada um negando o outro. O de dentro, o que cobre, ele palpita, esse está sempre à mostra, para qualquer um que quiser ver. Mas vê-lo requer proficiência na língua dos outros - ciência arcana, nexo indevassável.
quinta-feira, março 05, 2009
O lado da vida que tende para o nada - não há nada que não se possa perder, em definitivo. Não se pensa, aqui, naquelas (vocês as conhecem) que se mantêm nas veias, nos retratos que deixamos na sala, para que não esqueçamos. Deixem de lado essas perdas falsas, esses brinquedos de perda, simulacros de perda, o golem da presença na perda. Pensem naquela perda, aquela que você deixou. Não o seu pai, ou irmão, ou amor morto, mas aquele sorriso que tinha seu pai, ou irmão, ou amor morto, e que, essencial, de perdido que está, já não nos lembramos de esquecer. Pois o retrato, o bilhete, pois o pedaço de pano com que vocês dormem todas as noites e traz a ilusão da ausência dessa perda, eles são as pinturas ruins que copiam, fielmente, o acessório e o ilusório daquilo que se perdeu. O lado da vida que tende para o nada é a cor, a inflexão do lábio que têm quando estão surpresos, o ângulo bizarro que assumem os dedos nas palmas abertas, ou seja, o que não ficou gravado em uma rocha que se descubra.
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