sexta-feira, janeiro 23, 2009

O coração nos faz voltar: bato sempre no mesmo ritmo. Mas é precio fugir- fujamos da autenticidade das coisas.

O gosto do passo e do destino se embaralha no conhecido. Não deixe de ser falso.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Mas... voltemos. Os pés presos a este chão. A mão sente as saliências do solo, já conhece o ângulo das pedras e a posição dos vermes.

A morte espreita nas antenas daquela joaninha: esmagá-la, e negar o gesto bruto de seu sangue.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Mas gritos sempre caem em ouvidos surdos: anda, salva-te no silêncio.

domingo, janeiro 18, 2009

Não pergunte, Paulo, se as paredes esquecem:

só você tem o fardo da memória.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Os mortos são personagem que recriamos no passo do esquecimento.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

O retângulo

Fincado na terra, eu olho: tua lápide te descreve em duas datas. No intervalo, os pontos do granito nos contam uma história secreta. Tentar ouvi-la, e desistir - nossos segundos se perdem e se esquecem sem remédio.

Um gato passa, e se reúne à tarde. Não deixe de ficar calado.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Ver o ônibus
que passa
é celebrar sua morte.

Levar o garfo
à boca
é celebrá-la.

Retirar
do seu cabo
um jasmim
cheirá-lo,
e jogá-lo,
é celebrá-la.

Pensar que
a angústia
das noites
vai
durar
sempre
é celebrá-la.

Deixar
no sofá
em que dormia
a mancha de macarrão,
pai,
não é esquecer-te,

é celebrar-te.

domingo, janeiro 11, 2009

A António

Como olhar para trás,
Ver placas que nunca existiram?
Ah, não ficas bem, meu velho,
Não ficas bem em memória.

Que poderes fatais, que sinergia,
Sofrestes em teus neurônios de gigante?
Teves a genial ideia de
Ser vento, soltar-te num pulso orgíaco
Ser o supremo orgasmo da velocidade.

Mas rio-me, meu pequeno, rio-me,
Talvez não saibas que nunca suportei
(com certeza não sabes disso, não é?)
Ser mais do que sou.

Sou um homem qualquer, amigo,
Ah, sou um homem amigo da rocha,
Sou aquele que envelhece e morre,
Sou aquele que não tem orgasmos,
Sou aquele que trabalha e chega em casa
E reclama das costas e quer a janta pronta.

Como poderei encarar a morte, velho amigo
Sabendo que precipitas-te lindamente
Que abraçaste a dor,
Que odiaste todo o universo em dois segundos?

Eu fumo. Fumo porque sei que só posso morrer um maço de cada vez.
Minha mãe ralha comigo. Deixe-a ralhar. Morri no vício.
Tive de aprender a viver com a morte, encontrei-a
Na ponta do alvíssimo cigarro em brasas.
Deixei ele no chão, a queimar-se
Olhei ele queimar como se come uma barra
Do melhor chocolate que há.

Mas sei que não fumavas. Ah, meu amigo que sabe,
A memória é um suéter que ficou pequeno.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Estar a uma tela de distância:
pelo ar, não correm as ondas
a pousar nesse bolso,
a qualquer dia,
a qualquer hora,
em qualquer lugar.

Mas eu as mando,
as ondas -
- minha voz,
ou gélida ou fatal,
ou bela,
indiferente, ou anônima,

me confirma
em ouvido
estrangeiro.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Veja, querida, o retângulo dessa caixa: é o símbolo de perene que não escapa ao tempo. Brancas angústias correm o céu. As folhas que caem desenham um arabesco. O astro passa, e traz as novas: as coisas são as mesmas, é hora de dormir. Escutamos o que as flores e os insetos nos dizem, e conseguimos, sempre, demonstrar: sabemos muito bem que tudo é desprezo.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Você crê, e sempre, que o asfalto e o cascalho são o lado onírico da vida. Você, que pensa em termos de versos e capítulos, confronta-se, triste, com a angústia irreversível desses dias, e duvida, por um instante, de sua fé. Anda, pega um livro, você sabe que não melhora nada.

Hoje é um buraco de perene.
Nesses ombros que eu vejo
Não sabia onde olhar.

Quando crias uma pele,
E ela brilha caprichosa,
O processo que incorporas
É o percalço que dissolve
Os caminhos que seguimos,
E transforma as tuas costas
Nesse campo sem veredas.

Uma vez que não forneces
Boas placas que seguras
Orientem nosso olhar,
Peço a ti para deixar
Com um dedo tão sensível
Eu buscar os teus traçados,
Para que eu possa afinal,
Reaver esse direito
De saber onde enxergar.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Que na pequenez
está a forma
do nexo

sábado, dezembro 13, 2008

A espiral

Voltar, nós sabemos voltar: a cara sempre no mesmo chão. Rasga o rosto, e vê: as protuberâncias que cria a pele são a mostra de que não temos certo compasso - nova queda, e novo corpo. O tom regular dos tombos se acelera a cada passo.

Asculta: a carne se degrada no ritmo geométrico do tempo.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

A reta

Um dedo: o sangue que lhe cabe.
Tiras: o sucesso que não tarda.
Verde: a retina que se firma, e o traço

atravessa formas
atravessa o corpo -
as veias pulsam em linha reta para o corpo

quinta-feira, novembro 13, 2008

"La seule vie vraiment vécue, c'est la vie par l'art"
Proust

É preciso aceitar que esse senhor tem razão. A vida de fato completa está entre um homem e seu teclado, está no que consegue escrever. Na escrita, absolve-se a diferença entre belo e útil, entre puro e impuro. A escrita dá para os nossos pensamentos a forma que eles não têm em lugar nenhum, nem na nossa mente, nem na nossa fala, e nunca em nosso corpo. É na escrita que se imprime a verdade das coisas - não é a beleza uma solução?

Dando um tom pessoal que esse blog nunca teve, confesso que tenho dúvidas: é difícil acreditar no sucesso, nesse mundo tão impossível. Tudo é impossibilidade, tudo é limite - o real é o mundo do não. A beleza que eu vi, nunca a vi. Os amores que vivi, vivi só.

Mas lhes digo, com toda a convicção: hoje, sentei-me com o word, e escrevi. Digo para vocês: nada tem tanta realidade quanto a tinta no papel. Ela não será minha, e meu pai está morto - desafio que consigam explicar essas duas fatais realidades.

O texto, meus caros, não explica - dá sentido. Dá começo, meio, fim para o que parte do nada para não chegar nunca.
Quero, meu amor, dar a volta no nada, abraçar o errado: quero o gosto amargo que tem a cama. Quero o mesmo, quero o erro - quando você partir, querida, será o gosto do nada o seu rastro. O retorno impossível do fracasso, você, ao partir, será o gosto que tem o não.

Não esqueça sua hipérbole, querida, seu sorriso nos meus olhos.

terça-feira, novembro 11, 2008

Você anda com ela, perguntando-se das razões de sua atenção continuamente derramada sobre a tua incerta figura. Durante meses, você foi objeto de uma curiosidade simpática, de certa sedução estéril. Você poderia entender a indiferença, o asco, você entende a violência do chão áspero. O carinho, no entanto, tem o efeito de um murro: tua balbuciante resposta não é capaz de te pôr no eixo. Tuas mãos, tua pernas, tua cintura, respondem ao golpe desarticulando-se, transformando-te em um corpo continuamente jogado para frente. Mas ela não cessa de gostar, a empatia.

sábado, outubro 25, 2008

A afasia da palavra. o silêncio, o silêncio que não vem nunca.

sábado, outubro 11, 2008

Mes phrases

Na sórdida paródia da construção, essas frases, Cristina, catalogam o vazio. Estão a copular em outro arquivo,só dizem o anódino, anoréxico, só dizem o ascético - essas frases só dizem o que cicunda um conjuno vazio. As frases, Cristina, perderam o contato com o chão, perderam o peso das preposições, e seus artigos. Minhas frases lamentam o que não têm, têm o que não queriam, deixaram o cheiro da pedra no solo. Essas frases, puras, suicidam-se num rodopio de nada.